Ali, Million Dollar Baby, The Boxer, Cinderella Man, The Hurricane, Rocky são tudo filmes que retratam vidas no coração do universo do boxe, quer sejam inspirados em factos reais ou biópicos, quer partam do imaginário de um qualquer criativo, mas a absoluta verdade é que nenhum deles chega aos calcanhares deste fabuloso e estonteante Raging Bull, ou se quiserem, e adaptando a linguagem do que está em causa, todos os adversário perdem por knock out na primeira ronda. Nunca vi uma fita que retratasse tanto o mundo dentro do ringue como fora dele de um boxer de forma tão perfeita e imaculada. De facto, é uma verdadeira obra-prima de Martin Scorcese e, quanto a mim, é a melhor fita da parceria entre Robert DeNiro e o realizador em causa. Esta poderosa exploração da comunidade italo-americana repleta de machismo e um código muito próprio não foi recebido com muitos aplausos, sobretudo, devido à violência e a uma personagem central pouco ou nada calorosa ou afável. No entanto, a fotografia e a montagem foram amplamente elogiadas enquanto que, no que respeita a questões monetárias, a fita custou 18 milhões de dólares e ainda rendeu cinco na mesma unidade de moeda, perfazendo, portanto 23 milhões após todas as contas serem somadas. No panorama actual, é crucial referir que o filme é considerado uma obra-prima em um quase total consenso por parte da crítica mundial, chegando mesmo a figurar na primeira posição do top denominado "Melhores filmes de desporto" numa lista elaborada pelo AFI. Além disto, está excelentemente posicionado na sétima posição entre os dez melhores filmes de sempre para os realizadores pertencentes ao BFI, cuja lista detém outros sonantes nomes como Citizen Kane, The Godfather ou Vertigo.
Raging Bull é um biopic inspirado em um livro que descreve a vida do mundialmente famoso pugilista Jake LaMotta que, de resto, foi escrito pelo mesmo. No filme, encontramos uma história de paixão, obsessão, paranóia e outros instintos verdadeiramente animais que se tornam tão primordiais quanto a garra deste feroz lutador que trava batalhas tão complicada fora do ringue como dentro dele. A auto-destruição e a desconfiança ditam um caminho problemático e conflituoso cuja solução passa por sacrifícios humanos e psicológicos que Jake não está disposto a passar.
Quando termina a fita e somos brindados com uma música que parece perfeita aquando dos créditos finais, limitamo-nos a deixar os mesmos correr e começamos a pensar com muita intensidade no que acabámos de ver. Pensamos nas interpretações, na realização, no argumento, na fotografia, na montagem, na filmagem a preto e branco e, de repente, o pensamento teima em relembrar as extraordinárias actuações com que fomos brindados. Todas elas estão a um patamar que muitos poucos podem alcançar mas Robert DeNiro consegue estar ainda mais em cima tendo em conta o sacrifício humano a que esteve sujeito bem como a destruição psicológica que teve de suportar em relação à sua personagem. A dita é tão genial quanto impressionante. Primeiramente surpreendeu pelo quão bem conseguia lutar, e o que passou para o poder fazer já que treinou durante um ano inteiro com o próprio LaMotta. Depois há que salientar o facto de que DeNiro engordou 25 quilos com vista interpretar a primordial fase de decadência do boxer. No meio, conseguiu aliar o talento ao empenho, criando uma personagem fenomenal cujos conflitos dentro e fora do ringue só poderiam ser vencidos com a força de um touro. O resultado foi um estatueta dourada para Melhor Actor Principal na cerimónia de 1981. A certa altura, durante a película, pensei que a actuação de Joe Pesci poderia ser tão boa ou melhor que a de DeNiro. Obviamente, e sem saber, estava errado. No entanto, é mais uma daquelas inesquecíveis interpretações de Pesci onde a forte personalidade é emanada dando vida ao preto e branco. Este não desilude uma única vez durante os 123 minutos de fita, afirmando que a nomeação para "Melhor Actor Secundária" foi justa. Para essa categoria, embora do lado feminino, foi nomeada Cathy Moriarty que está muito bem enquanto a abusada mulher do personagem principal. A sua presença é constante e nunca se torna incomodativa, o que é, obviamente, uma excelente qualidade enquanto actriz.
Tão impressionante quanto a actuação do actor que encabeça o cartaz, é a realização de Martin Scorsese. Meus amigos, o que Scorsese fez foi cinema... e do bom. Conseguimos perceber isso desde o primeiro e magnífico momento, em que vemos DeNiro enquanto LaMotta a saltar no ringue enquanto aparecem os créditos iniciais, até ao estonteante último, em que vemos um decadente ex-boxer a recitar uma citação de Marlon Brando extraída de On The Waterfront diante de um espelho (lá está, novamente, o confronto com o espelho a que tanto DeNiro é submetido por parte do realizador). Por vezes, dava por mim de boca aberta perante tamanha genialidade de Scorsese. Tudo é imaculado, desde os planos, passando pelos ângulos e pela criatividade até aquele preto e branco de louvar aos deuses, que oferece uma mística incrível durante a total extensão da longa-metragem. A grande falha da Academia foi mesmo não ter oferecido o Oscar para "Melhor Realizador" a este senhor. Depois ainda somos confrontados com a requintada fotografia e a maravilhosa edição que redefiniram um inteiro estilo cinematográfico. Também o mise en scéne e a sonoplastia são competentes e servem os propósitos do filme. Outro factor que impressiona é o realismo inerente às lutas sendo estas, muito provavelmente, as melhores que já tive a oportunidade de visualizar em filme.
A título de curiosidade, poderei dizer que os efeitos sonoros relativos aos socos foram reproduzidos utilizando sons de melões e tomates a serem esmagados assim como foi utilizado chocolate para dar o efeito de sangue. Tudo o que foi escrito aponta, obviamente, para a nota máxima e ela será atribuida, onde as cinco estrelas em tantas possíveis e o 10 em 10 se adequam na perfeição. Se não o viram, vejam porque é obrigatório e, acima de tudo, porque é cinema.




7 sábias opiniões:
Talvez seja o mais perfeito de todos esses que referiste. Claro que embirro com filmes como "Million Dollar baby" e "The Wrestler". Robert DeNiro tem aqui uma das melhores interpretações da sua carreira (ele que tem uma carreira recheada de grandes desempenhos). Sempre tive um carinho especial pelo primeiro filme de "Rocky", daí não dizer que este "Raging Bull" seja melhor, mas é um marco no cinema.
abraço
É neste e no gangs de Nova Iorque que surge a minha dúvida de qual é a melhor obra de Scorsese( embora Taxi Driver seja muito bom)...
Abraço
http://nekascw.blogspot.com/
Absolutamente magnífico. 5* Um dos meus favoritos de Scorsese. Já agora, e porque é inteiramente merecido, parabéns pela crítica, muito bem escrita ;)
Cumps.
Roberto Simões
CINEROAD - A Estrada do Cinema
João,
Fair enough. Também gosto de Rocky mas considero este Raging Bull uma obra mais perfeita. Rocky é intemporal na mensagem e na abordagem. Apesar de retratarem temáticas similares, são completamente diferentes. Quem ganha é a audiência que pode assistir aos dois.
Nekas,
Eh eh, eu não patilho do teu entusiasmo face ao Gangs de Nova Iorque. :p
Roberto,
Subscrevo cada palavra. You're far to kind. Obrigado.
Abraços
Excelente crítica, excelente filme, excelente Robert DeNiro, excelente Scorsese...
Flávio,
Espero pela tua análise :p
Abraço
O melhor dos melhores do melhor. Grande Scorsese!
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