Antes de iniciar a antevisão referente ao mais recente projecto de Scorsese peço a visualização do trailer. Ou, se o leitor já teve a oportunidade de consultar o pedaço de fita editado com o intuito de estimular o espectador, peço uma revisão atenta do mesmo.
Foram várias as impressões que surgiram na minha mente após conferir com a devida ansiedade o trailer de
Shutter Island. Contudo, houve uma que insistiu em subsistir na minha memória. E essa prende-se com outro génio cinematográfico que dá pelo nome de Stanley Kubrick. É verdade, o filme de Scorsese trouxe as recordações inerentes a
The Shining. Ora, essa é uma consideração que me proporciona um elevado grau de expectativas. Não só a obra referida é muito perfeita a todos os níveis, como a considero a melhor e mais complexa obra de terror alguma vez realizada. É uma proclamação um tanto ou quanto frívola, é certa, mas se
Shutter Island tiver a capacidade, nem que seja mínima, de emular o talento emando por
The Shining, estamos perante um dos grandes filmes do ano vindouro e,
quiçá, da história do terror cinematográfico. Todavia, será sábio explicar os meus motivos para relatar tais considerações. A julgar pelos dois minutos e trinta e um segundos de filme fornecidos pela Paramount no trailer, podemos contar com algumas características que poderão dar origem a alusões à obra de Kubrick. Além da intensidade demonstrada e do terror psicológico que deixa marca, existem resquícios de alucinações e devaneios mentais que ajudam à complexidade da obra.
O filme de Scorsese relata o drama do
marshall norte-americano Teddy Daniels no longínquo ano de 1954. Este é chamado até à remota Shutter Island para investigar o desaparecimento de um dos 66 pacientes daquele estabelecimento que se pensa ainda estar na ilha. O dito alberga criminosos com distúrbios mentais, algo que dificulta a investigação de Daniels. À medida que vai fazendo progressos, o
marshall recebe uma enigmática mensagem da suposta fugitiva que declara existir um sexagésimo sétimo passageiro na ilha de que ninguém tem conhecimento. Ou pelo menos, ninguém parece querer ter conhecimento. A partir daí, a investigação ganha contornos, no mínimo, assustadores. Certamente,
Shutter Island não proporcionará um término de fita "em branco" ou aberto a sugestões como Kubrick fez com a sua obra-prima de 1980, mas se a explicação para o facto de faltar um paciente não for a mais óbvia (Exemplo: a personagem de Leonardo DiCaprio ser o próprio paciente), estão reunidas as condições e o potencial para que a Paramount ofereça às suas estimadas audiências um produto de elevadíssima qualidade.
Outro dos motivos que deixa antecipar um bom produto reside na sua origem. Shutter Island é baseado num romance dotado do mesmo nome escrito por Dennis Lehane. Observando o passado cinematográfico de Lehane, concluímos que as suas obras adaptadas ao grande ecrã resultaram em fitas notáveis. Falo do soberbo
Mystic River e do surpreendente
Gone Baby Gone. Ambos são sinónimos de excelentes mistérios, carregados de uma elevada carga dramática e representativos de realidades duras e pesadas. Ademais, Lehane ainda conta, no seu currículo, com três episódios da série televisiva The Wire, conhecida, precisamente, pelo seu brutal realismo.
Shutter Island fica, desde já marcado, pela nova colabração entre Scorsese e DiCaprio, a quarta para ser mais preciso. Não só esta é uma colaboração que tem dado frutos colectivamente, mas sobretudo individualmente. É notória a tremenda evolução de DiCaprio enquanto actor desde
Gangs of New York. DiCaprio sempre foi mais, muito mais, do que uma mera cara bonita e, apesar de não receber o reconhecimento que devia, vai provando esse mesmo facto a cada novo filme. Certamente que este não será uma excepção. O restante cast conta com nomes como Ben Kingsley, Emily Mortimer, Mark Ruffalo, Michelle Williams, Max von Sydow, Jack Earl Haley ou Patricia Clarkson (grandes nomes portanto). No campo da edição, o projecto tem o nome de Telma Schoonmaker, a amiga de longa data de Scorsese que, de resto, já venceu três Oscar na dita categoria graças a esta parceria. Também a fotografia conta com uma personalidade na matéria. Falo de Robert Richardson que além de vastas colaborações com Scorsese, ainda é um regular de Quentin Tarantino e Oliver Stone.
Para os seguidores do excelente produto televisivo da
HBO que é
Entourage, transmito desde já uma pequena curiosidade. No episódio 11 da quinta temporada, Ari Gold refere, a dada altura, que Leonardo DiCaprio não pode participar no projecto discutido porque está em Boston a rodar um filme. Ora nem mais, é mesmo
Shutter Island a que Ari se refere.
Os dados estão lançados. Resta esperar por Fevereiro próximo mas confirmar ou negligenciar as expectativas.
